sábado, 16 de março de 2013

Uma História Qualquer...

Certo dia eu encontrei na esquina perto da minha casa, às 4 horas da madrugada, uma menina bonita e de aparentemente doce, com um vestido preto curto e meio gasto, que me disse que não estava ali para se prostituir. Ela procurava o amor. Eu perguntei a ela o que havia acontecido para que ela estivesse ali daquele jeito, com a maquiagem um pouco borrada e já sumindo, parecendo que estava assim há dias. Eu tinha bebido um pouco e estava voltando de uma festa, mas mesmo assim me sentei ali do lado dela para ouvir a história que ela se dispôs a me contar:
"O que acontece?É que eu era muito insegura. Eu ficava sozinha no meu canto, sem tentar muita comunicação com as pessoas. Amigos?Sim, eu tinha. Eu tenho. Mas nunca estive tão incluída, eu sempre era a mais afastada. Eu estava sozinha, meu bem. Sozinha, desejosa de amor. E o que me aparece?Alguém de lugar nenhum, de jeito bandido, que me envolve e faz querer beijos antes de dormir. E eu os tive. Eu consegui o que queria.
Sim, eu assumo, eu já me prostituí antes. Antes disso tudo, em outra vida. Eu tinha apenas os meus 13 anos. E era a única forma que eu conhecia de encontrar homens que pareciam se interessar por mim. Mesmo que por uma noite. Mas ele... ele me quis no outro dia também, e nós ainda nem tínhamos feito nada demais, só ficamos nos olhando cobertos pelo lençol macio e surpreendentemente limpo da cama dele. A lua estava cheia e jogava seu brilho sobre nós, cruzando os fios entrelaçados do algodão e fazendo os olhos esverdeados dele brilharem para mim. Eu o tive aquela noite sem precisar me entregar a ele. Sem que ele me possuísse. Assim se seguiram muitas noites, e eu fui ficando feliz, eu fui me sentindo bem e aberta para o mundo. Ele me tocou e eu me arrisquei a dizer que o amava, e ele assim também me disse, mas já ali eu sentia que havia algo errado.
Uma semana depois, eu voltei à casa dele. Não havia ninguém. Bati o máximo que pude, mas um vizinho chegou até mim e me disse que ele não morava mais lá. Esse tempo todo, sem notícias, ele não havia me dito mais nada. Liguei para o número que ele tinha me dado uma vez e ele não atendia. Eu senti um nó no peito, pensando até que algo de ruim poderia ter acontecido, mas no fundo eu já sabia.
Quando chego em casa, já tarde da noite, molhada de uma chuva descomunal surgida de lugar nenhum, tropeço em um bilhete colocado por debaixo da porta. Parecia ter sido amassado na tentativa de jogar fora e depois reaberto, buscando uma mesma forma, que não poderia existir, para não demonstrar falta de coragem. Eu li cada palavra, cada letra azul meio borrada, cada parte riscada, cada erro, tentando fazer com que os detalhes pudessem me fazer entender os fatos realmente. Ele apenas me disse o que eu já imaginava desde o começo: ele não era capaz de me amar. Ele não era capaz de amar ninguém. Todo o carinho, os olhos brilhando, eram só efeitos da lua e de algumas drogas que usamos juntos. No final, ele era um grande covarde. E sabe o que eu senti?"
Parei um segundo, até perceber que ela estava esperando a minha resposta: "O quê?"
"Nada!Não senti nenhuma raiva. Não me senti traída, abandonada, não senti uma dor no peito. Ele apenas tinha ido e estava tudo bem. Ao mesmo tempo que aquilo mexia comigo, não me afetava. Eu descobri que eu não o amava também. Eu descobri que eu tinha conseguido não sentir absolutamente nada por ele. E foi algo que ultrapassou o limite do desejo. Simplesmente foi uma história, uma lembrança, um fato a ser guardado como experiência, que não deixou de ser algo profundo. Mas olha que contraditório: sabe quantos anos eu tenho?"
"Quantos?"
"34. E sabe quando tudo isso aconteceu?"
Fiquei em choque em saber a idade dela - ela me parecia muito mais nova-, mas não demorei a falar: "Quando?"
"Há 14 anos atrás. Eu tinha 20 anos! E eu não esqueci. Eu simplesmente não esqueci que naquele tempo eu não amava ninguém e, até hoje, não consegui amar ninguém. E é por isso que estou aqui essa noite. Com o mesmo vestido que usava quando o conheci. Sabe, continuo com o mesmo corpo daquela época." Ela soltou um único riso meio morto. "Seja como for, sentei aqui para esperar."
"Esperar o quê?"
"Eu já te disse, oras. O amor!"
"Em um ponto de prostituição?"
"Claro. Veja só, eu não te encontrei?Era por ti que eu esperava."
"Por mim?" Não conseguia compreender.
"Sim." Ela sorria. "Por alguém que fosse me ver aqui, perceber que não estou aqui pelo motivo que se poderia esperar e sentar para conversar comigo. Demonstrar interesse, mesmo que a bebida tenha te alterado um pouco. Quer amor melhor?Obrigada, meu bem. Eu finalmente encontrei o que esperei esses anos todos. O vazio não me dói mais. Não sou mais vazia."
Ela se levantou em um só passo e saiu, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Fiquei ali sem entender muito bem o que tinha acontecido enquanto a via caminhar leve, feliz e de forma delicada e meiga, tão contrária à ideia que o seu vestido passava. Tentava tirar alguma conclusão de toda aquela história, da vida daquela mulher, daquela espécie de desilusão amorosa sem amor. Mas não havia nenhuma lição a ser aprendida. Aquilo era apenas a vida.

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